sexta-feira, 31 de julho de 2015

Modernidade

Ele simplesmente não conseguia entender. Aos setenta anos, Joaquim não conseguia acompanhar a modernidade. Seu neto tentava exaustivamente explicar o funcionamento da internet, insistia que com o seu singelo celular, que por falar nele, estava sempre descarregado, conseguiria pagar todas as contas sem precisar passar pelas longas filas do banco. Mas Joaquim não entendia, achava perigoso, desnecessário. Afinal, no fim das contas, gostava de ir ao banco. Sempre reclamava, mas quando chegava lá ficava conversando com o segurança, Seu Mario, que era conhecido de longa data. Depois, trocava um papo com o gerente, além de algumas caras conhecidas que sempre se deparava. Ele era acostumado com aquilo, porque ora bolas iria deixar aquela rotina por um aplicativo de celular? O seu neto, acostumado com a modernidade, simplesmente não conseguia entender. Como alguém iria querer passar horas em uma fila de banco se poderia fazer a mesma coisa em alguns segundos, sentado em um sofá. Insistira na ideia de que aquilo era um absurdo. Afinal, Joaquim estava velho, acabara de chegar a marca dos setenta. Não precisava mais daquilo. Poderia muito bem se livrar daquele estorvo rapidamente. Conversou com todos da família, insistiu até dizer chega. Joaquim, após ouvir palavras de todos os membros próximos de sua família, decidiu abdicar de sua rotina de ir ao banco. Agora seu neto faria tudo pelo celular. Não precisaria mais se preocupar. Que ótimo, pensou. No começo, sentiu falta de comentar o resultado do futebol com seu Mário. Às vezes, ligava para o gerente, mas não era a mesma coisa. Já todas às terças-feiras, Joaquim ia ao mercadinho da esquina, ou como ele chamava, na mercearia. Era quase que um mantra, fazia parte de sua rotina fazia trinta anos. Conhecia todos os funcionários do bendito mercado, todos o tratavam como se fosse o melhor cliente. E de fato o era. Dona Margareth trabalhava há quinze anos como caixa. Confidenciara toda a sua vida à Joaquim, ao longo dos anos. Joaquim sabia, por exemplo, do filho de Dona Margareth que foi tentar a vida em Hollywood. Depois voltara, afinal ser ator era muito difícil. Agora trabalhava no mercadinho também, empacotando. Novamente, seu neto interveio. Joaquim estava muito velho, pobre avô. Não precisava daquilo mais, era desnecessário. Poderia ficar em casa que o netinho iria se preocupar em fazer as compras pela internet. Tinha um app incrível em que ele já deixava tudo agendado, não precisava se preocupar com nada. De princípio, o avô foi contra. Disse que iriam clonar seu cartão de crédito. Poderia ser pago no dinheiro? Menos mal, disse ele. Mas poderia vir um assaltante? Muito perigoso. Eram funcionários do mercado? Melhor não, disse ao neto. Mas, novamente, seu netinho convocou o conselho familiar. Decidiram, por unanimidade, que Joaquim deveria ser dispensado da árdua tarefa de fazer compras. Setenta anos, afinal. Não precisava mais se preocupar com aquilo, há tantas coisas melhores no mundo. Poderia ver um filme, programas de tv. Até acessar a internet. Era fácil, seu neto explicara mil vezes. Já há de ter aprendido. Após outras várias privações, quando chegou aos setenta e um anos, Joaquim saia de casa uma vez por mês, e olhe lá. Não saia mais para ir no banco, fazer compras, ir ao barbeiro, ir ao shopping, ao cinema, à farmácia, à casa dos amigos. A internet era maravilhosa, tudo poderia ser resolvido à distância. Pra que ir no cinema, quando se pode ver o filme na tv? Shopping pra que? Compra-se pelo celular. Farmácia, idem. Amigos, podem ser vistos pelo Skype. Joaquim começou a entristecer. Seu neto, logo estranhou. Logo agora, que poderia ter todo o tempo do mundo para fazer o quisesse, ficou triste. Isso não fazia nenhum sentido. O conselho da família se reuniu novamente. Não sabiam o que entristecia Joaquim, o que fazer. Aos setenta e dois anos, Joaquim faleceu. Uma morte repentina. Sua família ficou super abalada. Seu netinho, abaladíssimo, teve que organizar todo o velório. Não havia nenhum aplicativo que facilitasse aquela árdua tarefa. Teve que ligar para o agente funerário, assim como para todos os seus amigos mais idosos, que não possuíam nenhum tipo de tecnologia que facilitasse receber a trágica notícia. À medida que ia ligando, ouvia histórias fantásticas de seu avô, relatos que o emocionaram muito. Quando desligou o telefone, entendeu o que acontecera. A causa da morte de Joaquim agora era certa: internet.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Carta de amor

Você é um dos que me conhece há mais tempo
Praticamente esteve comigo em todos os grandes momentos da minha vida
Nos conhecemos quando eu era apenas um garoto, não sabia de nada da vida
Compartilhou comigo as primeiras experiências sexuais, como eu tremia de medo
Vivemos o primeiro amor juntos, você estava agarrado a mim, se lembra?
Lembra-se daquele verão que passamos em Búzios? Aquela garota linda se submeteu a nossos encantos, nos apaixonamos e ficamos o verão todo juntinhos.
Quando fui ficando mais velho, comecei a te expor cada vez menos. Nossa relação parecia distante, abstrata. Mas quero dizer que a culpa nunca foi sua. Você estava lá, presente, sempre enroladinho. Tudo foi culpa minha, eu só pensava em trabalho, trabalho. Quase não olhava mais pra você, parecíamos que estávamos em corpos diferentes.
É bem verdade, tivemos nossas discussões. Não é porque eu te escondo a maior parte do tempo que tenho vergonha de você. Pelo contrário, você fica a mostra nos momentos mais íntimos da minha vida. Eu sei que posso contar com você.
Quero te desejar tudo de bom, sinceramente não sei o que será de você. Quero te dizer que você fez parte de todos os grandes momentos da minha vida, mas devido à nova tendência social devemos nos separar. De uma vez por todas. Eu te amei, e continuarei te amando.
Adeus, pelo pubiano.