Gustavo acordou com uma sensação estranha. De alguma forma sabia que aquele seria o último dia da sua vida. Acordou cedo, como de praxe, e foi logo dar uma corrida na praia para começar o dia bem. Mas como tinha certeza que aquele seria o último dia da sua vida, correu como nunca. Fez vários abdominais, flexões e treinou forte já que aquela seria a sua última sessão fitness. Quando chegou em casa, deu um longo beijo nos seus dois filhos, contou que os amava, que acreditava neles e os levou na escola. Quando voltou, acordou a sua esposa com um belo café da manhã em uma bandeja que levou na cama. Deu um beijo nela, falou que a amava, que ela o fazia muito feliz todos os dias. Já que aquele seria o último dia de sua vida, fez amor com ela como nunca. Sentia toda a paixão que tivera quando casaram, vivenciou aquele momento como nunca havia feito. Depois foi trabalhar. Se dedicou de tamanha forma, resolveu todas as pendências que tinha deixado, tratou muito bem todos os seus colegas. Tomou coragem e mostrou uma ideia que tinha tido para o chefe. O chefe, que era um cara pragmático, gostou muito da ideia de Gustavo. Disse que era uma em mil, que estaria disposto a implantá-la no cotidiano da empresa, e que a partir de agora gostaria de contar com ele para colocar em prática aquela ideia. Na verdade, já estava apreciando o trabalho de Gustavo há um tempo, e essa ideia foi a cereja do bolo que precisava. Resolveu promover Gustavo, com um salário bem melhor e novas oportunidades de ascensão. Gustavo ficou muito feliz, pena que aquele seria o seu último dia. Quando chegou em casa, contou pra mulher e pros filhos a ótima notícia. Disse novamente que os amava muito e foi dormir com um largo sorriso no rosto. Morreria feliz, afinal.
Gustavo acordou com uma sensação estranha. De alguma forma sabia que aquele seria o último dia da sua vida...
sábado, 20 de setembro de 2014
Um filme e algumas reflexões
Imagine uma sociedade em que todos fossem controlados pelo
estado, todas as suas ações e o seu futuro fosse ditado por este. Um membro do
estado iria acompanhar você, desde o seu nascimento, e dizer o que você seria
com base na sua personalidade. Ninguém seria capaz de ter sentimentos, de amar,
de sentir ódio ou inveja. Todos teriam que tomar injeções diárias providas pelo
estado com o intuito de desumanizar a humanidade. Com isso, não haveria
guerras, sofrimento e decepções. Toda memória de uma sociedade mais humana
seria completamente apagada e a capacidade de pensar atrofiada das pessoas as
fariam com que vivessem em um mundo dominado pelo estado sem questionar. Essa é
a premissa do filme “O doador de memórias”, do diretor Phillip Noyce, e com a
bela atuação da brilhante Meryl Streep. Embora a crítica tenha avaliado o filme
de modo bem negativo (até surpreendentemente), o filme o faz pensar se as pessoas
estariam dispostas a abrir mão da liberdade em prol da segurança. Faz lembrar
muito o livro "1984" do George Orwell, em que as pessoas são ditadas pelo estado
opressor, que não têm liberdade para questionar o autoritarismo deste. Lógico
que o tanto o livro do Orwell quanto o filme exacerbam o papel opressor do
estado em prol de criar uma trama envolvente. Mas será que no cotidiano, não
abrimos mão da liberdade constantemente para conseguirmos angariar coisas que
consideramos mais importantes? Hoje, todos falam mal da ditadura brasileira e
quanto foi ruim para o Brasil. No entanto, no auge do milagre econômico,
ninguém estava se importando muito. O Brasil estava crescendo a taxas
altíssimas (mesmo que sem tamanha distribuição de renda), gerando emprego e
renda. Medidas impopulares eram tomadas em prol do desenvolvimento e só eram
tomadas assim porque os militares não precisavam da aprovação pública para se
manter no governo. Quando o negócio começou a desandar, que as críticas se
tornaram mais fortes e tomaram poder na boca do povo. Estou dizendo que as
pessoas aceitam abrir mão da liberdade, se conseguirem um bom retorno por ela.
Um exemplo mais simples (e no entanto, tão polêmico quanto)
é o casamento. Na maioria dos casos, aquela não é nem de longe a escolha ótima
para passar o resto da vida. Ambos sabem disso, mas escolhem casar por uma
questão de conveniência. Afinal, estão cansados de ficar procurando novas
escolhas ótimas e preferem abrir mão da liberdade em prol de uma maior
segurança. Lógico que estou simplificando essas situações, que não se baseiam
apenas nesta escolha, e envolvem inúmeras circunstâncias.
No entanto, acho que
o exemplo mais claro do que estou tentando dizer é o emprego público. Muitos
trabalhadores aceitam fazer o que, muitas vezes, não gostam, por uma questão de
segurança. As pessoas tendem a fugir do risco, porque este traz inconstância.
Na verdade, odeiam fazer aquele trabalho burocrático e sem muita prospecção de
sucesso, mas o fazem por simplesmente estarem seguros naquela situação. Estão
dentro da sua margem de segurança, esquecem de que precisam de novos desafios e
se acomodam. A vida vira uma rotina pragmática e sem sentido até que descobrem
o porquê de serem infelizes. Novamente, estas pessoas dependem do estado e não fazem o estado
depender delas. Estão sujeitas a ação do estado paternalista, proclamada por
Gilberto Freyre. Ficam acomodadas esperando o estado prover emprego e renda,
mesmo que para isso tenham que abrir mão da liberdade. Sim, a liberdade de voto,
já que suas escolhas são viesadas em função do candidato que promete um estado
mais acolhedor de acordo com as suas necessidades. Portanto, a espera por uma
ação de um estado grande e protetor, que acolhe todos com o inchaço da máquina
pública, está enraizado na cultura brasileira. Não é uma crítica, apenas a
realidade. Compreendo perfeitamente o voto por interesse, afinal por que ser altruísta
podendo obter um retorno de uma coisa que não obteria nada em troca. Essa é a
dinâmica da liberdade. Essa é a dinâmica do Brasil.
O lema da revolução
francesa, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, é simplesmente a grande meta até
hoje para uma sociedade ideal. Como dar mais igualdade, sem retirar um pouco da
liberdade? Como fazer com que a justiça social prevaleça dando liberdade total
para as pessoas agirem como bem entender. Infelizmente, ninguém toma uma ação
de modo altruísta. Todos querem defender os seus direitos ou os direitos das
suas famílias. Por isso tem que haver uma medida para que a sociedade ideal
coexista com liberdade.
Parece complicado, e
é. Mas você tem a liberdade para escolher entre um governo protetor, que te
acoberte e acomode, torne a passividade uma constância e a permissividade uma
lei, ou então um governo que faça com que as pessoas tomem por conta própria o
risco e conviva com a inconstância que é a vida. São escolhas, não há verdade
absoluta, não há certo e errado. São diferentes visões, que são baseadas em uma
cultura que é historicamente passiva. Escolhemos um estado acolhedor e o
círculo vicioso nos faz com que queiramos este estado sempre. O Brasil decidiu
que não quer ser livre.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
Por que a proposta da Globo é uma furada?
Os apresentadores da Globo têm
apresentado uma postura agressiva durante as entrevistas com os candidatos a
cargos executivos nas eleições deste ano.
É bom que se diga que o tom
crítico é aceitável, desde que feito com respeito. O que se tem visto, no
entanto, é uma posição arrogante dos entrevistadores, que cortam constantemente
a linha de raciocínio dos entrevistados, com interrupções das mais
desrespeitosas possíveis.
O símbolo desta nova postura
global foi o posicionamento de William Bonner durante a entrevista com a
presidente Dilma Rousseff. A petista mal pôde falar, já que Bonner tomou boa
parte do tempo da entrevista com suas perguntas e interrupções.
Aí reside o ponto chave do
fracasso da proposta: tempo. Que a emissora não queira servir de palco para os
candidatos fazerem campanha política, acho aceitável. Se ela quer tocar nos pontos
mais delicados da candidatura, também acho legal. Desde que faça isso com
responsabilidade.
Se a emissora quer propor um
debate entre entrevistador e entrevistado, teria que destinar um tempo maior
dentro de seus telejornais para a troca de ideias. O que não pode é dar dez
minutos para um candidato no qual ele é interrompido constantemente e
desrespeitosamente pelo questionador.
Nesta ânsia de querer colocar o
entrevistado contra a parede, a Globo vem pagando o preço.
Primeiro teve que prestar
esclarecimentos após entrevista repleta de acusações contra o candidato ao
governo do Rio de Janeiro Lindberg Farias, durante o RJTV 2ª edição.
Nesta última quinta-feira, 18,
foi pior. Nesta de fazer acusações a rodo contra os candidatos, tiveram de
ouvir resposta na mesma moeda do também candidato ao Palácio Guanabara
Anthony Garotinho. O deputado questionou a Globo, representada na entrevista
pela jornalista Mariana Gross, sobre denúncias de sonegação de impostos e o
comprovado apoio à ditadura militar.
Pois é, a postura da Globo é tão ruim que a emissora teve de ouvir lição de moral do Garotinho.
Pois é, a postura da Globo é tão ruim que a emissora teve de ouvir lição de moral do Garotinho.
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Bachelet pretende acabar com a Lei de Anistia no Chile
A presidente do Chile, Michelle Bachelet, está decidida a
acabar em seu país com a Lei de Anistia, que beneficia torturadores que atuaram
durante o governo ditatorial de Augusto Pinochet.
A declaração do Governo veio nesta última quinta-feira (11), data do 41°
aniversário do golpe que tirou de La Moneda o presidente socialista democraticamente
eleito, Salvador Allende, e que impôs o general Pinochet como presidente.
Apesar de ser uma medida mais do que necessária, Bachelet
sofre críticas de partidos da direita conservadora, mais em especial da UDI (Unión Demócrata Independiente).
Como mostra a matéria da edição brasileira do El País (link no final do post), para
o presidente da UDI, Ernesto Silva, “o governo deveria preocupar-se com o
terrorismo e o desemprego. Os chilenos querem pensar nos assuntos do futuro,
não do passado, e custa entender que Bachelet os transforme em uma prioridade.
Vai reabrir feridas”.
Bem, não sei sob qual ameaça terrrorista poderia estar vivendo o
Chile. Talvez seja aquele velho terrorismo que sempre surge no discurso da
direita para promover o conservadorismo.
Além do mais, olhar para frente não significa ignorar o passado, e sim entendê-lo como parte formadora do presente e do futuro, nunca empurrando a sujeira para debaixo do tapete.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
PSDB cria caso no projeto de ciclovias de Haddad
Dando prosseguimento ao seu plano de fazer 400 quilômetros
de ciclovia até 2015, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, divulgou nesta
semana seu projeto final para implantação de uma ciclovia no canteiro central
da Avenida Paulista. Apesar do projeto representar claramente um avanço nas
políticas de mobilidade urbana, o PSDB vem criando barreiras para a efetiva
realização do plano do prefeito petista.
O senador tucano Aloysio Nunes fala em “delírio autoritário”
do prefeito, como mostra a matéria do Estadão para qual deixo o link abaixo.
No entanto, a sensação que fica é que se trata mais de uma
rixa política do que de qualquer outra coisa. A ideia é boa, mas como parte de
um político do partido rival não poderia ser aceita tranquilamente.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
O passado se repetiu para a Seleção Canarinho
Já se passaram dois meses da histórica derrota da seleção brasileira
para a Alemanha por 7 a 1 na Copa de 14. No fatídico 8 de julho, presenciamos a
vitória de um time que representava o dito futebol moderno, mas que em nenhum
momento negou a beleza do jogo, sobre uma equipe que se baseava única e
exclusivamente em seu ótimo histórico dentro do esporte (nem mesmo o talento
individual de Neymar pôde ser usado, visto que o craque estava machucado).
Este enredo não é novo. Durante a Copa de 1974, o Brasil
também achou que seu retrospecto em Copas do Mundo poderia sozinho derrubar
seus adversários.
Estive lendo o livro “O Futebol explica o Brasil”, de Marcos
Guterman, e uma passagem me chamou a atenção. Às vésperas de encarar a temida
Holanda na Copa disputada na Alemanha, em jogo valendo uma vaga na final, o
treinador brasileiro Zagallo fez pouco do “Carrossel Holandês”. Para ele, a
Holanda “era muito tico-tico no fubá e pouco futebol, que nem o América dos
anos 50”. Resultado? Dois a zero para os holandeses.
É claro que não chega a ser um 7 a 1, mas já mostra que o futebol brasileiro não aprendeu com seus erros. É bem verdade que a camisa amarelinha pesa
e pode ajudar a Seleção em algumas ocasiões. Mas pedir que, sozinha, vença
jogos, já é demais.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
O pedinte
Eduardo era um garoto que gostava de pedir. Sempre acreditara em Deus, em uma figura divina que fosse maior que ele e que todos. Pedia sempre uma coisa nova na esperança de que o todo poderoso concedesse. Começou logo quando criança, quando resolveu pedir um carrinho de controle remoto. Pediu várias vezes, mas nunca ganhou um. Já na adolescência pediu descontroladamente por um amor como o de cinema. Queria um que fosse igualzinho ao de um filme de romance, em que pudesse se desligar do mundo exterior e só pensar no seu amor enlouquecido. Mas nunca encontrou. Depois disso, resolveu apelar. Pedia carro, casa, trabalho, uma noite de sexo, um celular novo, que esquecessem das suas dívidas no cartão de crédito...
Certa vez, Eduardo se desentendeu com Deus. Resolveu pedir que ele o tirasse a vida, já que era a culpa de Deus de nunca ter feito ou realizado nada em toda a sua vida, afinal ele nunca dera condições. Como quem sabia que nunca que Deus iria atender aquele pedido, resolveu fazê-lo da boa pra fora. Então subitamente viu um clarão e uma voz profunda. "Eduardo, sabe quando dizem que Deus é branco? É uma mentira! Mas o meu humor é negro." Uma lágrima caiu dos olhos de Eduardo. A sua última.
O que as eleições no Brasil significam para o Mercosul?
O resultado da disputa presidencial no Brasil diz
respeito não somente aos cidadãos brasileiros, mas a toda a América Latina. A
definição da liderança de um país que tem a quinta economia do mundo gera interesse
no mundo inteiro, mas principalmente em nossos vizinhos.
Nos últimos 12 anos pudemos observar uma aproximação
do governo brasileiro com os demais representantes latino-americanos. Esta
integração é muito importante para a região, uma vez que seus países apresentam
problemas históricos e sociais semelhantes. Um fortalecimento conjunto de todas
as nações locais representa um benefício para todos, que podem somar forças e
trocar experiências visando a superação de suas dificuldades.
O Brasil, como grande potência regional, tem um
papel chave na manutenção e fortalecimento do Mercosul (no caso, organização formada unicamente por países da América do Sul). As direções tomadas
pelo próximo presidente brasileiro podem alavancar ou dizimar este importante bloco
econômico.
Dentre os três candidatos com maiores chances no
pleito majoritário, dois aparecem com perspectivas bastante claras. Dilma Rousseff,
candidata da situação, deve buscar um estreitamento (ou pelo menos uma manutenção)
das relações com os países vizinhos. Aécio Neves, do PSDB, significa uma
intensificação dos acordos com EUA e União Europeia e um distanciamento dos
países latino-americanos.
A terceira via é Marina Silva, candidata pelo PSB.
Pela formação da equipe econômica que a cerca, a tendência é que ela penda mais
para o lado da política econômica defendida pelos partidários de Aécio, com o
aumento de acordos bilaterais com as grandes potencias e um afrouxamento nos
acordos com o Mercosul.
Este é um ponto muito importante para a política
internacional brasileira. O país precisa definir se quer se visto pelos seus
vizinhos como mais um representante latino-americano, preocupado com o
desenvolvimento econômico e social da região, ou como um representante das
grandes potencias no coração da América.
Não que o Brasil deva
negar todo e qualquer tipo de acordo com os Estados Unidos e as nações
europeias, mas parece importante para o desenvolvimento do país que suas
relações econômicas sejam as mais diversas possíveis, incluindo em sua lista de
parceiros representantes da África, da Ásia e, principalmente, da América
Latina.
Apresentação
O Projeto Blog Livre é um espaço para
compartilhamento de conteúdos, aberto aos mais diferentes assuntos. Trata-se de
uma ferramenta para exposição de obras literárias, textos de crítica política,
econômica e social, comentários sobre música e cinema e tudo mais que for
interessante. Sejam bem-vindos!
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