sábado, 20 de setembro de 2014

Último dia

Gustavo acordou com uma sensação estranha. De alguma forma sabia que aquele seria o último dia da sua vida. Acordou cedo, como de praxe, e foi logo dar uma corrida na praia para começar o dia bem. Mas como tinha certeza que aquele seria o último dia da sua vida, correu como nunca. Fez vários abdominais, flexões e treinou forte já que aquela seria a sua última sessão fitness. Quando chegou em casa, deu um longo beijo nos seus dois filhos, contou que os amava, que acreditava neles e os levou na escola. Quando voltou, acordou a sua esposa com um belo café da manhã em uma bandeja que levou na cama. Deu um beijo nela, falou que a amava, que ela o fazia muito feliz todos os dias. Já que aquele seria o último dia de sua vida, fez amor com ela como nunca. Sentia toda a paixão que tivera quando casaram, vivenciou aquele momento como nunca havia feito. Depois foi trabalhar. Se dedicou de tamanha forma, resolveu todas as pendências que tinha deixado, tratou muito bem todos os seus colegas. Tomou coragem e mostrou uma ideia que tinha tido para o chefe. O chefe, que era um cara pragmático, gostou muito da ideia de Gustavo. Disse que era uma em mil, que estaria disposto a implantá-la no cotidiano da empresa, e que a partir de agora gostaria de contar com ele para colocar em prática aquela ideia. Na verdade, já estava apreciando o trabalho de Gustavo há um tempo, e essa ideia foi  a cereja do bolo que precisava. Resolveu promover Gustavo, com um salário bem melhor e novas oportunidades de ascensão. Gustavo ficou muito feliz, pena que aquele seria o seu último dia. Quando chegou em casa, contou pra mulher e pros filhos a ótima notícia. Disse novamente que os amava muito e foi dormir com um largo sorriso no rosto. Morreria feliz, afinal.

Gustavo acordou com uma sensação estranha.  De alguma forma sabia que aquele seria o último dia da sua vida...

Um filme e algumas reflexões

Imagine uma sociedade em que todos fossem controlados pelo estado, todas as suas ações e o seu futuro fosse ditado por este. Um membro do estado iria acompanhar você, desde o seu nascimento, e dizer o que você seria com base na sua personalidade. Ninguém seria capaz de ter sentimentos, de amar, de sentir ódio ou inveja. Todos teriam que tomar injeções diárias providas pelo estado com o intuito de desumanizar a humanidade. Com isso, não haveria guerras, sofrimento e decepções. Toda memória de uma sociedade mais humana seria completamente apagada e a capacidade de pensar atrofiada das pessoas as fariam com que vivessem em um mundo dominado pelo estado sem questionar. Essa é a premissa do filme “O doador de memórias”, do diretor Phillip Noyce, e com a bela atuação da brilhante Meryl Streep. Embora a crítica tenha avaliado o filme de modo bem negativo (até surpreendentemente), o filme o faz pensar se as pessoas estariam dispostas a abrir mão da liberdade em prol da segurança. Faz lembrar muito o livro "1984" do George Orwell, em que as pessoas são ditadas pelo estado opressor, que não têm liberdade para questionar o autoritarismo deste. Lógico que o tanto o livro do Orwell quanto o filme exacerbam o papel opressor do estado em prol de criar uma trama envolvente. Mas será que no cotidiano, não abrimos mão da liberdade constantemente para conseguirmos angariar coisas que consideramos mais importantes? Hoje, todos falam mal da ditadura brasileira e quanto foi ruim para o Brasil. No entanto, no auge do milagre econômico, ninguém estava se importando muito. O Brasil estava crescendo a taxas altíssimas (mesmo que sem tamanha distribuição de renda), gerando emprego e renda. Medidas impopulares eram tomadas em prol do desenvolvimento e só eram tomadas assim porque os militares não precisavam da aprovação pública para se manter no governo. Quando o negócio começou a desandar, que as críticas se tornaram mais fortes e tomaram poder na boca do povo. Estou dizendo que as pessoas aceitam abrir mão da liberdade, se conseguirem um bom retorno por ela.
Um exemplo mais simples (e no entanto, tão polêmico quanto) é o casamento. Na maioria dos casos, aquela não é nem de longe a escolha ótima para passar o resto da vida. Ambos sabem disso, mas escolhem casar por uma questão de conveniência. Afinal, estão cansados de ficar procurando novas escolhas ótimas e preferem abrir mão da liberdade em prol de uma maior segurança. Lógico que estou simplificando essas situações, que não se baseiam apenas nesta escolha, e envolvem inúmeras circunstâncias.

No entanto, acho que o exemplo mais claro do que estou tentando dizer é o emprego público. Muitos trabalhadores aceitam fazer o que, muitas vezes, não gostam, por uma questão de segurança. As pessoas tendem a fugir do risco, porque este traz inconstância. Na verdade, odeiam fazer aquele trabalho burocrático e sem muita prospecção de sucesso, mas o fazem por simplesmente estarem seguros naquela situação. Estão dentro da sua margem de segurança, esquecem de que precisam de novos desafios e se acomodam. A vida vira uma rotina pragmática e sem sentido até que descobrem o porquê de serem infelizes. Novamente, estas pessoas dependem do estado e não fazem o estado depender delas. Estão sujeitas a ação do estado paternalista, proclamada por Gilberto Freyre. Ficam acomodadas esperando o estado prover emprego e renda, mesmo que para isso tenham que abrir mão da liberdade. Sim, a liberdade de voto, já que suas escolhas são viesadas em função do candidato que promete um estado mais acolhedor de acordo com as suas necessidades. Portanto, a espera por uma ação de um estado grande e protetor, que acolhe todos com o inchaço da máquina pública, está enraizado na cultura brasileira. Não é uma crítica, apenas a realidade. Compreendo perfeitamente o voto por interesse, afinal por que ser altruísta podendo obter um retorno de uma coisa que não obteria nada em troca. Essa é a dinâmica da liberdade. Essa é a dinâmica do Brasil.
O lema da revolução francesa, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, é simplesmente a grande meta até hoje para uma sociedade ideal. Como dar mais igualdade, sem retirar um pouco da liberdade? Como fazer com que a justiça social prevaleça dando liberdade total para as pessoas agirem como bem entender. Infelizmente, ninguém toma uma ação de modo altruísta. Todos querem defender os seus direitos ou os direitos das suas famílias. Por isso tem que haver uma medida para que a sociedade ideal coexista com liberdade.

Parece complicado, e é. Mas você tem a liberdade para escolher entre um governo protetor, que te acoberte e acomode, torne a passividade uma constância e a permissividade uma lei, ou então um governo que faça com que as pessoas tomem por conta própria o risco e conviva com a inconstância que é a vida. São escolhas, não há verdade absoluta, não há certo e errado. São diferentes visões, que são baseadas em uma cultura que é historicamente passiva. Escolhemos um estado acolhedor e o círculo vicioso nos faz com que queiramos este estado sempre. O Brasil decidiu que não quer ser livre.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Por que a proposta da Globo é uma furada?

Os apresentadores da Globo têm apresentado uma postura agressiva durante as entrevistas com os candidatos a cargos executivos nas eleições deste ano.

É bom que se diga que o tom crítico é aceitável, desde que feito com respeito. O que se tem visto, no entanto, é uma posição arrogante dos entrevistadores, que cortam constantemente a linha de raciocínio dos entrevistados, com interrupções das mais desrespeitosas possíveis.

O símbolo desta nova postura global foi o posicionamento de William Bonner durante a entrevista com a presidente Dilma Rousseff. A petista mal pôde falar, já que Bonner tomou boa parte do tempo da entrevista com suas perguntas e interrupções.

Aí reside o ponto chave do fracasso da proposta: tempo. Que a emissora não queira servir de palco para os candidatos fazerem campanha política, acho aceitável. Se ela quer tocar nos pontos mais delicados da candidatura, também acho legal. Desde que faça isso com responsabilidade.

Se a emissora quer propor um debate entre entrevistador e entrevistado, teria que destinar um tempo maior dentro de seus telejornais para a troca de ideias. O que não pode é dar dez minutos para um candidato no qual ele é interrompido constantemente e desrespeitosamente pelo questionador.

Nesta ânsia de querer colocar o entrevistado contra a parede, a Globo vem pagando o preço.

Primeiro teve que prestar esclarecimentos após entrevista repleta de acusações contra o candidato ao governo do Rio de Janeiro Lindberg Farias, durante o RJTV 2ª edição.

Nesta última quinta-feira, 18, foi pior. Nesta de fazer acusações a rodo contra os candidatos, tiveram de ouvir resposta na mesma moeda do também candidato ao Palácio Guanabara Anthony Garotinho. O deputado questionou a Globo, representada na entrevista pela jornalista Mariana Gross, sobre denúncias de sonegação de impostos e o comprovado apoio à ditadura militar.

Pois é, a postura da Globo é tão ruim que a emissora teve de ouvir lição de moral do Garotinho.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Bachelet pretende acabar com a Lei de Anistia no Chile

A presidente do Chile, Michelle Bachelet, está decidida a acabar em seu país com a Lei de Anistia, que beneficia torturadores que atuaram durante o governo ditatorial de Augusto Pinochet.

A declaração do Governo veio nesta última quinta-feira (11), data do 41° aniversário do golpe que tirou de La Moneda o presidente socialista democraticamente eleito, Salvador Allende, e que impôs o general Pinochet como presidente.

Apesar de ser uma medida mais do que necessária, Bachelet sofre críticas de partidos da direita conservadora, mais em especial da UDI (Unión Demócrata Independiente).

Como mostra a matéria da edição brasileira do El País (link no final do post), para o presidente da UDI, Ernesto Silva, “o governo deveria preocupar-se com o terrorismo e o desemprego. Os chilenos querem pensar nos assuntos do futuro, não do passado, e custa entender que Bachelet os transforme em uma prioridade. Vai reabrir feridas”.

Bem, não sei sob qual ameaça terrrorista poderia estar vivendo o Chile. Talvez seja aquele velho terrorismo que sempre surge no discurso da direita para promover o conservadorismo.

Além do mais, olhar para frente não significa ignorar o passado, e sim entendê-lo como parte formadora do presente e do futuro, nunca empurrando a sujeira para debaixo do tapete.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

PSDB cria caso no projeto de ciclovias de Haddad

Dando prosseguimento ao seu plano de fazer 400 quilômetros de ciclovia até 2015, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, divulgou nesta semana seu projeto final para implantação de uma ciclovia no canteiro central da Avenida Paulista. Apesar do projeto representar claramente um avanço nas políticas de mobilidade urbana, o PSDB vem criando barreiras para a efetiva realização do plano do prefeito petista.

O senador tucano Aloysio Nunes fala em “delírio autoritário” do prefeito, como mostra a matéria do Estadão para qual deixo o link abaixo. 

No entanto, a sensação que fica é que se trata mais de uma rixa política do que de qualquer outra coisa. A ideia é boa, mas como parte de um político do partido rival não poderia ser aceita tranquilamente.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O passado se repetiu para a Seleção Canarinho

Já se passaram dois meses da histórica derrota da seleção brasileira para a Alemanha por 7 a 1 na Copa de 14. No fatídico 8 de julho, presenciamos a vitória de um time que representava o dito futebol moderno, mas que em nenhum momento negou a beleza do jogo, sobre uma equipe que se baseava única e exclusivamente em seu ótimo histórico dentro do esporte (nem mesmo o talento individual de Neymar pôde ser usado, visto que o craque estava machucado).

Este enredo não é novo. Durante a Copa de 1974, o Brasil também achou que seu retrospecto em Copas do Mundo poderia sozinho derrubar seus adversários.

Estive lendo o livro “O Futebol explica o Brasil”, de Marcos Guterman, e uma passagem me chamou a atenção. Às vésperas de encarar a temida Holanda na Copa disputada na Alemanha, em jogo valendo uma vaga na final, o treinador brasileiro Zagallo fez pouco do “Carrossel Holandês”. Para ele, a Holanda “era muito tico-tico no fubá e pouco futebol, que nem o América dos anos 50”. Resultado? Dois a zero para os holandeses.

É claro que não chega a ser um 7 a 1, mas já mostra que o futebol brasileiro não aprendeu com seus erros. É bem verdade que a camisa amarelinha pesa e pode ajudar a Seleção em algumas ocasiões. Mas pedir que, sozinha, vença jogos, já é demais.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O pedinte

Eduardo era um garoto que gostava de pedir. Sempre acreditara em Deus, em uma figura divina que fosse maior que ele e que todos. Pedia sempre uma coisa nova na esperança de que o todo poderoso concedesse. Começou logo quando criança, quando resolveu pedir um carrinho de controle remoto. Pediu várias vezes, mas nunca ganhou um. Já na adolescência pediu descontroladamente por um amor como o de cinema. Queria um que fosse igualzinho ao de um filme de romance, em que pudesse se desligar do mundo exterior e só pensar no seu amor enlouquecido. Mas nunca encontrou. Depois disso, resolveu apelar. Pedia carro, casa, trabalho, uma noite de sexo, um celular novo, que esquecessem das suas dívidas no cartão de crédito...
Certa vez, Eduardo se desentendeu com Deus. Resolveu pedir que ele o tirasse a vida, já que era a culpa de Deus de nunca ter feito ou realizado nada em toda a sua vida, afinal ele nunca dera condições. Como quem sabia que nunca que Deus iria atender aquele pedido, resolveu fazê-lo da boa pra fora. Então subitamente viu um clarão e uma voz profunda. "Eduardo, sabe quando dizem que Deus é branco? É uma mentira! Mas o meu humor é negro." Uma lágrima caiu dos olhos de Eduardo. A sua última.

O que as eleições no Brasil significam para o Mercosul?

O resultado da disputa presidencial no Brasil diz respeito não somente aos cidadãos brasileiros, mas a toda a América Latina. A definição da liderança de um país que tem a quinta economia do mundo gera interesse no mundo inteiro, mas principalmente em nossos vizinhos.

Nos últimos 12 anos pudemos observar uma aproximação do governo brasileiro com os demais representantes latino-americanos. Esta integração é muito importante para a região, uma vez que seus países apresentam problemas históricos e sociais semelhantes. Um fortalecimento conjunto de todas as nações locais representa um benefício para todos, que podem somar forças e trocar experiências visando a superação de suas dificuldades.

O Brasil, como grande potência regional, tem um papel chave na manutenção e fortalecimento do Mercosul (no caso, organização formada unicamente por países da América do Sul). As direções tomadas pelo próximo presidente brasileiro podem alavancar ou dizimar este importante bloco econômico.

Dentre os três candidatos com maiores chances no pleito majoritário, dois aparecem com perspectivas bastante claras. Dilma Rousseff, candidata da situação, deve buscar um estreitamento (ou pelo menos uma manutenção) das relações com os países vizinhos. Aécio Neves, do PSDB, significa uma intensificação dos acordos com EUA e União Europeia e um distanciamento dos países latino-americanos.

A terceira via é Marina Silva, candidata pelo PSB. Pela formação da equipe econômica que a cerca, a tendência é que ela penda mais para o lado da política econômica defendida pelos partidários de Aécio, com o aumento de acordos bilaterais com as grandes potencias e um afrouxamento nos acordos com o Mercosul.

Este é um ponto muito importante para a política internacional brasileira. O país precisa definir se quer se visto pelos seus vizinhos como mais um representante latino-americano, preocupado com o desenvolvimento econômico e social da região, ou como um representante das grandes potencias no coração da América.

Não que o Brasil deva negar todo e qualquer tipo de acordo com os Estados Unidos e as nações europeias, mas parece importante para o desenvolvimento do país que suas relações econômicas sejam as mais diversas possíveis, incluindo em sua lista de parceiros representantes da África, da Ásia e, principalmente, da América Latina.

Apresentação

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