Projeto Blog Livre
sexta-feira, 31 de julho de 2015
Modernidade
Ele simplesmente não conseguia entender. Aos setenta anos, Joaquim não conseguia acompanhar a modernidade. Seu neto tentava exaustivamente explicar o funcionamento da internet, insistia que com o seu singelo celular, que por falar nele, estava sempre descarregado, conseguiria pagar todas as contas sem precisar passar pelas longas filas do banco. Mas Joaquim não entendia, achava perigoso, desnecessário. Afinal, no fim das contas, gostava de ir ao banco.
Sempre reclamava, mas quando chegava lá ficava conversando com o segurança, Seu Mario, que era conhecido de longa data. Depois, trocava um papo com o gerente, além de algumas caras conhecidas que sempre se deparava. Ele era acostumado com aquilo, porque ora bolas iria deixar aquela rotina por um aplicativo de celular?
O seu neto, acostumado com a modernidade, simplesmente não conseguia entender. Como alguém iria querer passar horas em uma fila de banco se poderia fazer a mesma coisa em alguns segundos, sentado em um sofá. Insistira na ideia de que aquilo era um absurdo. Afinal, Joaquim estava velho, acabara de chegar a marca dos setenta. Não precisava mais daquilo. Poderia muito bem se livrar daquele estorvo rapidamente. Conversou com todos da família, insistiu até dizer chega. Joaquim, após ouvir palavras de todos os membros próximos de sua família, decidiu abdicar de sua rotina de ir ao banco. Agora seu neto faria tudo pelo celular. Não precisaria mais se preocupar. Que ótimo, pensou. No começo, sentiu falta de comentar o resultado do futebol com seu Mário. Às vezes, ligava para o gerente, mas não era a mesma coisa.
Já todas às terças-feiras, Joaquim ia ao mercadinho da esquina, ou como ele chamava, na mercearia. Era quase que um mantra, fazia parte de sua rotina fazia trinta anos. Conhecia todos os funcionários do bendito mercado, todos o tratavam como se fosse o melhor cliente. E de fato o era. Dona Margareth trabalhava há quinze anos como caixa. Confidenciara toda a sua vida à Joaquim, ao longo dos anos. Joaquim sabia, por exemplo, do filho de Dona Margareth que foi tentar a vida em Hollywood. Depois voltara, afinal ser ator era muito difícil. Agora trabalhava no mercadinho também, empacotando.
Novamente, seu neto interveio. Joaquim estava muito velho, pobre avô. Não precisava daquilo mais, era desnecessário. Poderia ficar em casa que o netinho iria se preocupar em fazer as compras pela internet. Tinha um app incrível em que ele já deixava tudo agendado, não precisava se preocupar com nada. De princípio, o avô foi contra. Disse que iriam clonar seu cartão de crédito. Poderia ser pago no dinheiro? Menos mal, disse ele. Mas poderia vir um assaltante? Muito perigoso. Eram funcionários do mercado? Melhor não, disse ao neto. Mas, novamente, seu netinho convocou o conselho familiar. Decidiram, por unanimidade, que Joaquim deveria ser dispensado da árdua tarefa de fazer compras. Setenta anos, afinal. Não precisava mais se preocupar com aquilo, há tantas coisas melhores no mundo. Poderia ver um filme, programas de tv. Até acessar a internet. Era fácil, seu neto explicara mil vezes. Já há de ter aprendido.
Após outras várias privações, quando chegou aos setenta e um anos, Joaquim saia de casa uma vez por mês, e olhe lá. Não saia mais para ir no banco, fazer compras, ir ao barbeiro, ir ao shopping, ao cinema, à farmácia, à casa dos amigos. A internet era maravilhosa, tudo poderia ser resolvido à distância. Pra que ir no cinema, quando se pode ver o filme na tv? Shopping pra que? Compra-se pelo celular. Farmácia, idem. Amigos, podem ser vistos pelo Skype.
Joaquim começou a entristecer. Seu neto, logo estranhou. Logo agora, que poderia ter todo o tempo do mundo para fazer o quisesse, ficou triste. Isso não fazia nenhum sentido. O conselho da família se reuniu novamente. Não sabiam o que entristecia Joaquim, o que fazer.
Aos setenta e dois anos, Joaquim faleceu. Uma morte repentina. Sua família ficou super abalada. Seu netinho, abaladíssimo, teve que organizar todo o velório. Não havia nenhum aplicativo que facilitasse aquela árdua tarefa. Teve que ligar para o agente funerário, assim como para todos os seus amigos mais idosos, que não possuíam nenhum tipo de tecnologia que facilitasse receber a trágica notícia. À medida que ia ligando, ouvia histórias fantásticas de seu avô, relatos que o emocionaram muito. Quando desligou o telefone, entendeu o que acontecera. A causa da morte de Joaquim agora era certa: internet.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Carta de amor
Você é um dos que me conhece há mais tempo
Praticamente esteve comigo em todos os grandes momentos da minha vida
Nos conhecemos quando eu era apenas um garoto, não sabia de nada da vida
Compartilhou comigo as primeiras experiências sexuais, como eu tremia de medo
Vivemos o primeiro amor juntos, você estava agarrado a mim, se lembra?
Lembra-se daquele verão que passamos em Búzios? Aquela garota linda se submeteu a nossos encantos, nos apaixonamos e ficamos o verão todo juntinhos.
Quando fui ficando mais velho, comecei a te expor cada vez menos. Nossa relação parecia distante, abstrata. Mas quero dizer que a culpa nunca foi sua. Você estava lá, presente, sempre enroladinho. Tudo foi culpa minha, eu só pensava em trabalho, trabalho. Quase não olhava mais pra você, parecíamos que estávamos em corpos diferentes.
É bem verdade, tivemos nossas discussões. Não é porque eu te escondo a maior parte do tempo que tenho vergonha de você. Pelo contrário, você fica a mostra nos momentos mais íntimos da minha vida. Eu sei que posso contar com você.
Quero te desejar tudo de bom, sinceramente não sei o que será de você. Quero te dizer que você fez parte de todos os grandes momentos da minha vida, mas devido à nova tendência social devemos nos separar. De uma vez por todas. Eu te amei, e continuarei te amando.
Adeus, pelo pubiano.
Praticamente esteve comigo em todos os grandes momentos da minha vida
Nos conhecemos quando eu era apenas um garoto, não sabia de nada da vida
Compartilhou comigo as primeiras experiências sexuais, como eu tremia de medo
Vivemos o primeiro amor juntos, você estava agarrado a mim, se lembra?
Lembra-se daquele verão que passamos em Búzios? Aquela garota linda se submeteu a nossos encantos, nos apaixonamos e ficamos o verão todo juntinhos.
Quando fui ficando mais velho, comecei a te expor cada vez menos. Nossa relação parecia distante, abstrata. Mas quero dizer que a culpa nunca foi sua. Você estava lá, presente, sempre enroladinho. Tudo foi culpa minha, eu só pensava em trabalho, trabalho. Quase não olhava mais pra você, parecíamos que estávamos em corpos diferentes.
É bem verdade, tivemos nossas discussões. Não é porque eu te escondo a maior parte do tempo que tenho vergonha de você. Pelo contrário, você fica a mostra nos momentos mais íntimos da minha vida. Eu sei que posso contar com você.
Quero te desejar tudo de bom, sinceramente não sei o que será de você. Quero te dizer que você fez parte de todos os grandes momentos da minha vida, mas devido à nova tendência social devemos nos separar. De uma vez por todas. Eu te amei, e continuarei te amando.
Adeus, pelo pubiano.
domingo, 7 de dezembro de 2014
A pergunta e a resposta
O psicanalista francês
André Green disse uma vez que “a infelicidade da pergunta é a resposta”.
A pergunta pode ser
respondida de várias formas. Com hipóteses, teorias, metáforas. A resposta pode
ser conclusiva, insatisfatória, parcial. A pergunta move a ciência. A perseguição por uma resposta satisfatória move o pensamento e o desenvolvimento
científico. Mas talvez esqueçamos que quem deu origem a resposta foi à
pergunta. Qual o grande feito de uma resposta se não houvesse a pergunta a
priori? A necessidade incessante por encontrar respostas para tudo pode levar a
uma verdade absoluta, inquestionável. E acreditar fielmente em uma coisa ou
teoria é simplesmente abrir mão do pensamento. Acreditamos por muito tempo que
a terra era plana, na teoria Lamarck, etc. Ainda bem que soubemos questionar e
pensar em novas possibilidades. A ciência, de certo modo, é bem sensata nesse
sentido. Sabemos que sempre existirão fenômenos que não podem ser completamente
explicados por teorias e outros que serão remodelados por novas teorias
científicas. Por isso não há verdade absoluta na ciência.
Paralelamente, fico
pensando se o mundo que vejo é o real. Se a minha verdade absoluta, que criei
na minha mente, com cores e formas definidas, é realmente a mais aceitável e as
outras devem ser classificadas como anomalias. Quando aprendemos na escola que
o amarelo é o amarelo e o azul é o azul, por que as pessoas que veem as cores
de outro modo são classificadas como daltônicas? Elas têm uma anomalia, por não
fazerem parte da maioria. Mas será que a forma destas pessoas de ver o mundo
não está mais próxima da perfeição do que a nossa?
Por que os loucos são
loucos? Também não compactuam com o modo de pensar de uma grande massa da
sociedade. Por isso são taxados como loucos, anormais. Mas talvez, a visão de
mundo deles esteja mais próxima de uma verdade do que a nossa. Talvez os
verdadeiros loucos não estejam em manicômios, mas espalhados pelas ruas. Se
preocupando com problemas inventados pela própria sociedade, com obrigações e
preocupações concretas, mas que sob a perspectiva do anormal se tornam abstratas.
Não sabemos a resposta,
nunca saberemos, provavelmente. Mas se nos incomodamos em pensar, mostramos que
somos altruístas com a pergunta. Ela nunca terá uma resposta, mas mesmo assim
nos preocupamos com ela. Não só nos preocupamos, quanto questionamos as
verdades que aí existem. A arrogância de acreditar em uma verdade absoluta leva
a abdicação do pensamento. Quando abdicamos da resposta, voltamos a pensar.
A resposta faz o mundo
girar, mas a pergunta faz a humanidade.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Meus motivos para não votar em Dilma Rousseff para presidente:
Não sou nenhum Aecista convicto e nem nenhum anti-PTista. Não acredito que o Aecio represente nenhuma mudança política significativa, na verdade as mesmas estruturas políticas e os mesmos figurões continuarão vindo a tona em esquemas de corrupção, infelizmente. O PT, por outro lado, teve papel significativo na estruturação de um Brasil com mais distribuição de renda, nos governos Lula. Mas não é possível continuar distribuindo renda sem gerar efetivamente renda, e nisso o governo Dilma fracassou feio. A partir disso, enumero meus 3 motivos para não votar na continuação deste governo, longe de qualquer corrente anti-PT ou convicção utópica de mudanças estruturalistas focadas em um candidato conservador:
1) MP 579: A tal medida provisória, depois convertida em lei, que pretendia reduzir a conta de luz do consumidor e foi um dos pilares da candidatura de Dilma, simplesmente sucateou o setor elétrico brasileiro. O sistema de cotas, que impossibilita as geradoras de comercializar energia com o mercado livre, e as obrigada a destinar ao mercado cativo (distribuidoras de energia) simplesmente acabou com o setor elétrico. O governo impunha às geradoras com contratos a vencer a renovação com condições inviáveis a iniciativa privada. Com isso, apenas as empresas o governo (que não são independentes e sofrem intervenção deste governo) aceitaram essas condições pífias de renovação. As geradoras privadas pularam fora do barco, o que deixou várias distribuidoras descontratadas.Para o próximo ano, o governo terá um sério de desafio que exigirá grandes aportes para suprir as distribuidoras de energia que estão descontratadas, além das indústrias, que estão tendo que comprar energia com preços bem mais salgados e inviabilizam a continuação de muitas delas. Os problemas do setor elétrico não para por aí, e não é apenas fruto de 2 anos com chuvas abaixo da média. Passa por hidrelétricas com menor capacidade de reservatórios ( por questão ambiental/regulatória e por menor capacidade estrutural) e a construção de termelétricas que não poderiam ter sido construídas, afinal o preço da operação destas ,na base, é inviável.
2) Abandono ao tripé macroeconômico: O tão famoso tripé que consiste no superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante. O Brasil simplesmente pratica metas de inflação irreais, onde se busca alcançar o teto da meta. O mercado não acredita mais nas metas vigentes, não importa o quando o Mantega (só agora vai tirar?) diga que alcançar o centro da meta é prioridade do governo. O superávit primário já registra níveis que são extremamente preocupantes (segundo o FMI) e não condizem com a situação de um país emergente e dependente do capital externo. O que me leva ao terceiro motivo...
3) Fuga de capitais: O mercado não acredita mais na gestão do PT, o Brasil não vai a lugar nenhum com este governo. Ainda não podemos abrir mão do capital externo de curto prazo, e as políticas econômicas adotadas pelo governo não condizem com esta situação. Hoje, uma grande parte dos investimentos é dependente do BNDES, mas não adianta só se ater ao papel de fomento deste banco, precisamos de mais investimento externo para continuar a crescer.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Doença esquisita
Heitor tinha um temperamento esquisito, nas palavras de sua própria mãe, Dona Sônia, que nunca o via sair de casa. Seus amigos viviam reclamando de todas as desculpas que ele dava para não sair. Quando resolvia sair de casa, dedicar algum tempo da sua vida ao convívio social e abandonar sua prateleira cheia de livros e filmes, logo cansava. Após uma hora, Heitor já estava bolando desculpas para sair do recinto. Podia ser dor de cabeça, provas para estudar, cuidar do irmão menor, do cachorro, da avó, etc. Mas nunca era convincente na desculpa que se propunha a dar, na verdade, todos sabiam que era tudo uma grande farsa. Até que Heitor teve uma grande ideia.
A ideia era simples, porém inusitada. Fingiria que estava doente, que não poderia ficar muito porque se sentia cansado. Mas que doença, afinal, poderia livrá-lo de tamanho inconveniente? Câncer? Seria muito dramático, seus amigos amargariam em preocupação. Uma hérnia na lombar? Poderia ser difícil fingir, já que de vez em quando gostava de dar uma corridinha na praia. Até que teve uma ideia que o consumiu: fingiria ter bronquite. Seus pulmões simplesmente não resistiam ficar muito tempo em pé, por exemplo.
Resolveu colocar a teoria em prática. De princípio, todos estranharam. Seus amigos nunca o ouviram reclamar daquilo, mas ele insistiu que sempre teve tal doença, mas agora, com a idade, estava começando a sentir seus efeitos. Começou a simular os efeitos da doença quando estava demasiadamente entediado. Com o tempo, começou a fingir tão bem que até a sua mãe, Dona Sônia, que o conhecia muito bem, começou a cair na peça. Todos começaram a ficar preocupados com ele. Seus amigos começaram a tratá-lo bem melhor, piedosos de uma catástrofe pulmonar. Sua mãe chorava aos prantos, mas mesmo assim, Heitor insistia na mentira. Chegara a um ponto que não podia desfazê-la, afinal, caso fizesse, perderia a amizade de todos seus amigos, sua mãe ficaria super decepcionada. Resolveu então ir a fundo com a mentira. Inventaria que tinha apenas algumas semanas de vida, todos cairiam em desgraça. Desse modo, quando contasse que era tudo mentira, todos ficariam felizes por não perdê-lo. Tudo daria certo, afinal.
Seus amigos queriam encontrá-lo todos os dias. Sua mãe, chorava dia e noite, queria ficar perto do filho sempre. Heitor começou a ver o tamanho que aquela mentira tomara. Todos estavam aos prantos por causa daquela dramaticidade atenuada e agora seria muito tarde para voltar atrás. Conseguiu ser eternado em um hospital: deu uma parte do dinheiro que tinha para subornar um médico para simular aquela situação devastadora. O médico, sem entender o por quê de tudo aquilo, entendeu muito bem quando o fez coçar o seu bolso. Internou Heitor no hospital no dia seguinte. Agora o plano era fingir uma cura milagrosa e voltar para casa após algumas semanas, completamente curado.
Sua mãe o visitava todos os dias. Seus familiares choravam juntos no canto de sua cama. Seus amigos não conseguiam entender como aquela situação chegara aquele ponto. Todos davam Heitor como morto. Apenas esperavam pelo momento oportuno para dizer adeus. Como que soubessem que o momento chegara, todos disseram adeus a Heitor. Ele simplesmente não entendia, disse a todos, finalmente, que tudo não passara de uma grande farsa. Inventara tudo, afinal. Mas ninguém ousou acreditar. Achavam que ele estava delirando.
No dia seguinte Heitor morreu. A autópsia mostrou o que todos esperavam: bronquite crônica.
A ideia era simples, porém inusitada. Fingiria que estava doente, que não poderia ficar muito porque se sentia cansado. Mas que doença, afinal, poderia livrá-lo de tamanho inconveniente? Câncer? Seria muito dramático, seus amigos amargariam em preocupação. Uma hérnia na lombar? Poderia ser difícil fingir, já que de vez em quando gostava de dar uma corridinha na praia. Até que teve uma ideia que o consumiu: fingiria ter bronquite. Seus pulmões simplesmente não resistiam ficar muito tempo em pé, por exemplo.
Resolveu colocar a teoria em prática. De princípio, todos estranharam. Seus amigos nunca o ouviram reclamar daquilo, mas ele insistiu que sempre teve tal doença, mas agora, com a idade, estava começando a sentir seus efeitos. Começou a simular os efeitos da doença quando estava demasiadamente entediado. Com o tempo, começou a fingir tão bem que até a sua mãe, Dona Sônia, que o conhecia muito bem, começou a cair na peça. Todos começaram a ficar preocupados com ele. Seus amigos começaram a tratá-lo bem melhor, piedosos de uma catástrofe pulmonar. Sua mãe chorava aos prantos, mas mesmo assim, Heitor insistia na mentira. Chegara a um ponto que não podia desfazê-la, afinal, caso fizesse, perderia a amizade de todos seus amigos, sua mãe ficaria super decepcionada. Resolveu então ir a fundo com a mentira. Inventaria que tinha apenas algumas semanas de vida, todos cairiam em desgraça. Desse modo, quando contasse que era tudo mentira, todos ficariam felizes por não perdê-lo. Tudo daria certo, afinal.
Seus amigos queriam encontrá-lo todos os dias. Sua mãe, chorava dia e noite, queria ficar perto do filho sempre. Heitor começou a ver o tamanho que aquela mentira tomara. Todos estavam aos prantos por causa daquela dramaticidade atenuada e agora seria muito tarde para voltar atrás. Conseguiu ser eternado em um hospital: deu uma parte do dinheiro que tinha para subornar um médico para simular aquela situação devastadora. O médico, sem entender o por quê de tudo aquilo, entendeu muito bem quando o fez coçar o seu bolso. Internou Heitor no hospital no dia seguinte. Agora o plano era fingir uma cura milagrosa e voltar para casa após algumas semanas, completamente curado.
Sua mãe o visitava todos os dias. Seus familiares choravam juntos no canto de sua cama. Seus amigos não conseguiam entender como aquela situação chegara aquele ponto. Todos davam Heitor como morto. Apenas esperavam pelo momento oportuno para dizer adeus. Como que soubessem que o momento chegara, todos disseram adeus a Heitor. Ele simplesmente não entendia, disse a todos, finalmente, que tudo não passara de uma grande farsa. Inventara tudo, afinal. Mas ninguém ousou acreditar. Achavam que ele estava delirando.
No dia seguinte Heitor morreu. A autópsia mostrou o que todos esperavam: bronquite crônica.
sábado, 20 de setembro de 2014
Último dia
Gustavo acordou com uma sensação estranha. De alguma forma sabia que aquele seria o último dia da sua vida. Acordou cedo, como de praxe, e foi logo dar uma corrida na praia para começar o dia bem. Mas como tinha certeza que aquele seria o último dia da sua vida, correu como nunca. Fez vários abdominais, flexões e treinou forte já que aquela seria a sua última sessão fitness. Quando chegou em casa, deu um longo beijo nos seus dois filhos, contou que os amava, que acreditava neles e os levou na escola. Quando voltou, acordou a sua esposa com um belo café da manhã em uma bandeja que levou na cama. Deu um beijo nela, falou que a amava, que ela o fazia muito feliz todos os dias. Já que aquele seria o último dia de sua vida, fez amor com ela como nunca. Sentia toda a paixão que tivera quando casaram, vivenciou aquele momento como nunca havia feito. Depois foi trabalhar. Se dedicou de tamanha forma, resolveu todas as pendências que tinha deixado, tratou muito bem todos os seus colegas. Tomou coragem e mostrou uma ideia que tinha tido para o chefe. O chefe, que era um cara pragmático, gostou muito da ideia de Gustavo. Disse que era uma em mil, que estaria disposto a implantá-la no cotidiano da empresa, e que a partir de agora gostaria de contar com ele para colocar em prática aquela ideia. Na verdade, já estava apreciando o trabalho de Gustavo há um tempo, e essa ideia foi a cereja do bolo que precisava. Resolveu promover Gustavo, com um salário bem melhor e novas oportunidades de ascensão. Gustavo ficou muito feliz, pena que aquele seria o seu último dia. Quando chegou em casa, contou pra mulher e pros filhos a ótima notícia. Disse novamente que os amava muito e foi dormir com um largo sorriso no rosto. Morreria feliz, afinal.
Gustavo acordou com uma sensação estranha. De alguma forma sabia que aquele seria o último dia da sua vida...
Gustavo acordou com uma sensação estranha. De alguma forma sabia que aquele seria o último dia da sua vida...
Um filme e algumas reflexões
Imagine uma sociedade em que todos fossem controlados pelo
estado, todas as suas ações e o seu futuro fosse ditado por este. Um membro do
estado iria acompanhar você, desde o seu nascimento, e dizer o que você seria
com base na sua personalidade. Ninguém seria capaz de ter sentimentos, de amar,
de sentir ódio ou inveja. Todos teriam que tomar injeções diárias providas pelo
estado com o intuito de desumanizar a humanidade. Com isso, não haveria
guerras, sofrimento e decepções. Toda memória de uma sociedade mais humana
seria completamente apagada e a capacidade de pensar atrofiada das pessoas as
fariam com que vivessem em um mundo dominado pelo estado sem questionar. Essa é
a premissa do filme “O doador de memórias”, do diretor Phillip Noyce, e com a
bela atuação da brilhante Meryl Streep. Embora a crítica tenha avaliado o filme
de modo bem negativo (até surpreendentemente), o filme o faz pensar se as pessoas
estariam dispostas a abrir mão da liberdade em prol da segurança. Faz lembrar
muito o livro "1984" do George Orwell, em que as pessoas são ditadas pelo estado
opressor, que não têm liberdade para questionar o autoritarismo deste. Lógico
que o tanto o livro do Orwell quanto o filme exacerbam o papel opressor do
estado em prol de criar uma trama envolvente. Mas será que no cotidiano, não
abrimos mão da liberdade constantemente para conseguirmos angariar coisas que
consideramos mais importantes? Hoje, todos falam mal da ditadura brasileira e
quanto foi ruim para o Brasil. No entanto, no auge do milagre econômico,
ninguém estava se importando muito. O Brasil estava crescendo a taxas
altíssimas (mesmo que sem tamanha distribuição de renda), gerando emprego e
renda. Medidas impopulares eram tomadas em prol do desenvolvimento e só eram
tomadas assim porque os militares não precisavam da aprovação pública para se
manter no governo. Quando o negócio começou a desandar, que as críticas se
tornaram mais fortes e tomaram poder na boca do povo. Estou dizendo que as
pessoas aceitam abrir mão da liberdade, se conseguirem um bom retorno por ela.
Um exemplo mais simples (e no entanto, tão polêmico quanto)
é o casamento. Na maioria dos casos, aquela não é nem de longe a escolha ótima
para passar o resto da vida. Ambos sabem disso, mas escolhem casar por uma
questão de conveniência. Afinal, estão cansados de ficar procurando novas
escolhas ótimas e preferem abrir mão da liberdade em prol de uma maior
segurança. Lógico que estou simplificando essas situações, que não se baseiam
apenas nesta escolha, e envolvem inúmeras circunstâncias.
No entanto, acho que
o exemplo mais claro do que estou tentando dizer é o emprego público. Muitos
trabalhadores aceitam fazer o que, muitas vezes, não gostam, por uma questão de
segurança. As pessoas tendem a fugir do risco, porque este traz inconstância.
Na verdade, odeiam fazer aquele trabalho burocrático e sem muita prospecção de
sucesso, mas o fazem por simplesmente estarem seguros naquela situação. Estão
dentro da sua margem de segurança, esquecem de que precisam de novos desafios e
se acomodam. A vida vira uma rotina pragmática e sem sentido até que descobrem
o porquê de serem infelizes. Novamente, estas pessoas dependem do estado e não fazem o estado
depender delas. Estão sujeitas a ação do estado paternalista, proclamada por
Gilberto Freyre. Ficam acomodadas esperando o estado prover emprego e renda,
mesmo que para isso tenham que abrir mão da liberdade. Sim, a liberdade de voto,
já que suas escolhas são viesadas em função do candidato que promete um estado
mais acolhedor de acordo com as suas necessidades. Portanto, a espera por uma
ação de um estado grande e protetor, que acolhe todos com o inchaço da máquina
pública, está enraizado na cultura brasileira. Não é uma crítica, apenas a
realidade. Compreendo perfeitamente o voto por interesse, afinal por que ser altruísta
podendo obter um retorno de uma coisa que não obteria nada em troca. Essa é a
dinâmica da liberdade. Essa é a dinâmica do Brasil.
O lema da revolução
francesa, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, é simplesmente a grande meta até
hoje para uma sociedade ideal. Como dar mais igualdade, sem retirar um pouco da
liberdade? Como fazer com que a justiça social prevaleça dando liberdade total
para as pessoas agirem como bem entender. Infelizmente, ninguém toma uma ação
de modo altruísta. Todos querem defender os seus direitos ou os direitos das
suas famílias. Por isso tem que haver uma medida para que a sociedade ideal
coexista com liberdade.
Parece complicado, e
é. Mas você tem a liberdade para escolher entre um governo protetor, que te
acoberte e acomode, torne a passividade uma constância e a permissividade uma
lei, ou então um governo que faça com que as pessoas tomem por conta própria o
risco e conviva com a inconstância que é a vida. São escolhas, não há verdade
absoluta, não há certo e errado. São diferentes visões, que são baseadas em uma
cultura que é historicamente passiva. Escolhemos um estado acolhedor e o
círculo vicioso nos faz com que queiramos este estado sempre. O Brasil decidiu
que não quer ser livre.
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