sábado, 20 de setembro de 2014

Um filme e algumas reflexões

Imagine uma sociedade em que todos fossem controlados pelo estado, todas as suas ações e o seu futuro fosse ditado por este. Um membro do estado iria acompanhar você, desde o seu nascimento, e dizer o que você seria com base na sua personalidade. Ninguém seria capaz de ter sentimentos, de amar, de sentir ódio ou inveja. Todos teriam que tomar injeções diárias providas pelo estado com o intuito de desumanizar a humanidade. Com isso, não haveria guerras, sofrimento e decepções. Toda memória de uma sociedade mais humana seria completamente apagada e a capacidade de pensar atrofiada das pessoas as fariam com que vivessem em um mundo dominado pelo estado sem questionar. Essa é a premissa do filme “O doador de memórias”, do diretor Phillip Noyce, e com a bela atuação da brilhante Meryl Streep. Embora a crítica tenha avaliado o filme de modo bem negativo (até surpreendentemente), o filme o faz pensar se as pessoas estariam dispostas a abrir mão da liberdade em prol da segurança. Faz lembrar muito o livro "1984" do George Orwell, em que as pessoas são ditadas pelo estado opressor, que não têm liberdade para questionar o autoritarismo deste. Lógico que o tanto o livro do Orwell quanto o filme exacerbam o papel opressor do estado em prol de criar uma trama envolvente. Mas será que no cotidiano, não abrimos mão da liberdade constantemente para conseguirmos angariar coisas que consideramos mais importantes? Hoje, todos falam mal da ditadura brasileira e quanto foi ruim para o Brasil. No entanto, no auge do milagre econômico, ninguém estava se importando muito. O Brasil estava crescendo a taxas altíssimas (mesmo que sem tamanha distribuição de renda), gerando emprego e renda. Medidas impopulares eram tomadas em prol do desenvolvimento e só eram tomadas assim porque os militares não precisavam da aprovação pública para se manter no governo. Quando o negócio começou a desandar, que as críticas se tornaram mais fortes e tomaram poder na boca do povo. Estou dizendo que as pessoas aceitam abrir mão da liberdade, se conseguirem um bom retorno por ela.
Um exemplo mais simples (e no entanto, tão polêmico quanto) é o casamento. Na maioria dos casos, aquela não é nem de longe a escolha ótima para passar o resto da vida. Ambos sabem disso, mas escolhem casar por uma questão de conveniência. Afinal, estão cansados de ficar procurando novas escolhas ótimas e preferem abrir mão da liberdade em prol de uma maior segurança. Lógico que estou simplificando essas situações, que não se baseiam apenas nesta escolha, e envolvem inúmeras circunstâncias.

No entanto, acho que o exemplo mais claro do que estou tentando dizer é o emprego público. Muitos trabalhadores aceitam fazer o que, muitas vezes, não gostam, por uma questão de segurança. As pessoas tendem a fugir do risco, porque este traz inconstância. Na verdade, odeiam fazer aquele trabalho burocrático e sem muita prospecção de sucesso, mas o fazem por simplesmente estarem seguros naquela situação. Estão dentro da sua margem de segurança, esquecem de que precisam de novos desafios e se acomodam. A vida vira uma rotina pragmática e sem sentido até que descobrem o porquê de serem infelizes. Novamente, estas pessoas dependem do estado e não fazem o estado depender delas. Estão sujeitas a ação do estado paternalista, proclamada por Gilberto Freyre. Ficam acomodadas esperando o estado prover emprego e renda, mesmo que para isso tenham que abrir mão da liberdade. Sim, a liberdade de voto, já que suas escolhas são viesadas em função do candidato que promete um estado mais acolhedor de acordo com as suas necessidades. Portanto, a espera por uma ação de um estado grande e protetor, que acolhe todos com o inchaço da máquina pública, está enraizado na cultura brasileira. Não é uma crítica, apenas a realidade. Compreendo perfeitamente o voto por interesse, afinal por que ser altruísta podendo obter um retorno de uma coisa que não obteria nada em troca. Essa é a dinâmica da liberdade. Essa é a dinâmica do Brasil.
O lema da revolução francesa, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, é simplesmente a grande meta até hoje para uma sociedade ideal. Como dar mais igualdade, sem retirar um pouco da liberdade? Como fazer com que a justiça social prevaleça dando liberdade total para as pessoas agirem como bem entender. Infelizmente, ninguém toma uma ação de modo altruísta. Todos querem defender os seus direitos ou os direitos das suas famílias. Por isso tem que haver uma medida para que a sociedade ideal coexista com liberdade.

Parece complicado, e é. Mas você tem a liberdade para escolher entre um governo protetor, que te acoberte e acomode, torne a passividade uma constância e a permissividade uma lei, ou então um governo que faça com que as pessoas tomem por conta própria o risco e conviva com a inconstância que é a vida. São escolhas, não há verdade absoluta, não há certo e errado. São diferentes visões, que são baseadas em uma cultura que é historicamente passiva. Escolhemos um estado acolhedor e o círculo vicioso nos faz com que queiramos este estado sempre. O Brasil decidiu que não quer ser livre.

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