Imagine uma sociedade em que todos fossem controlados pelo
estado, todas as suas ações e o seu futuro fosse ditado por este. Um membro do
estado iria acompanhar você, desde o seu nascimento, e dizer o que você seria
com base na sua personalidade. Ninguém seria capaz de ter sentimentos, de amar,
de sentir ódio ou inveja. Todos teriam que tomar injeções diárias providas pelo
estado com o intuito de desumanizar a humanidade. Com isso, não haveria
guerras, sofrimento e decepções. Toda memória de uma sociedade mais humana
seria completamente apagada e a capacidade de pensar atrofiada das pessoas as
fariam com que vivessem em um mundo dominado pelo estado sem questionar. Essa é
a premissa do filme “O doador de memórias”, do diretor Phillip Noyce, e com a
bela atuação da brilhante Meryl Streep. Embora a crítica tenha avaliado o filme
de modo bem negativo (até surpreendentemente), o filme o faz pensar se as pessoas
estariam dispostas a abrir mão da liberdade em prol da segurança. Faz lembrar
muito o livro "1984" do George Orwell, em que as pessoas são ditadas pelo estado
opressor, que não têm liberdade para questionar o autoritarismo deste. Lógico
que o tanto o livro do Orwell quanto o filme exacerbam o papel opressor do
estado em prol de criar uma trama envolvente. Mas será que no cotidiano, não
abrimos mão da liberdade constantemente para conseguirmos angariar coisas que
consideramos mais importantes? Hoje, todos falam mal da ditadura brasileira e
quanto foi ruim para o Brasil. No entanto, no auge do milagre econômico,
ninguém estava se importando muito. O Brasil estava crescendo a taxas
altíssimas (mesmo que sem tamanha distribuição de renda), gerando emprego e
renda. Medidas impopulares eram tomadas em prol do desenvolvimento e só eram
tomadas assim porque os militares não precisavam da aprovação pública para se
manter no governo. Quando o negócio começou a desandar, que as críticas se
tornaram mais fortes e tomaram poder na boca do povo. Estou dizendo que as
pessoas aceitam abrir mão da liberdade, se conseguirem um bom retorno por ela.
Um exemplo mais simples (e no entanto, tão polêmico quanto)
é o casamento. Na maioria dos casos, aquela não é nem de longe a escolha ótima
para passar o resto da vida. Ambos sabem disso, mas escolhem casar por uma
questão de conveniência. Afinal, estão cansados de ficar procurando novas
escolhas ótimas e preferem abrir mão da liberdade em prol de uma maior
segurança. Lógico que estou simplificando essas situações, que não se baseiam
apenas nesta escolha, e envolvem inúmeras circunstâncias.
No entanto, acho que
o exemplo mais claro do que estou tentando dizer é o emprego público. Muitos
trabalhadores aceitam fazer o que, muitas vezes, não gostam, por uma questão de
segurança. As pessoas tendem a fugir do risco, porque este traz inconstância.
Na verdade, odeiam fazer aquele trabalho burocrático e sem muita prospecção de
sucesso, mas o fazem por simplesmente estarem seguros naquela situação. Estão
dentro da sua margem de segurança, esquecem de que precisam de novos desafios e
se acomodam. A vida vira uma rotina pragmática e sem sentido até que descobrem
o porquê de serem infelizes. Novamente, estas pessoas dependem do estado e não fazem o estado
depender delas. Estão sujeitas a ação do estado paternalista, proclamada por
Gilberto Freyre. Ficam acomodadas esperando o estado prover emprego e renda,
mesmo que para isso tenham que abrir mão da liberdade. Sim, a liberdade de voto,
já que suas escolhas são viesadas em função do candidato que promete um estado
mais acolhedor de acordo com as suas necessidades. Portanto, a espera por uma
ação de um estado grande e protetor, que acolhe todos com o inchaço da máquina
pública, está enraizado na cultura brasileira. Não é uma crítica, apenas a
realidade. Compreendo perfeitamente o voto por interesse, afinal por que ser altruísta
podendo obter um retorno de uma coisa que não obteria nada em troca. Essa é a
dinâmica da liberdade. Essa é a dinâmica do Brasil.
O lema da revolução
francesa, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, é simplesmente a grande meta até
hoje para uma sociedade ideal. Como dar mais igualdade, sem retirar um pouco da
liberdade? Como fazer com que a justiça social prevaleça dando liberdade total
para as pessoas agirem como bem entender. Infelizmente, ninguém toma uma ação
de modo altruísta. Todos querem defender os seus direitos ou os direitos das
suas famílias. Por isso tem que haver uma medida para que a sociedade ideal
coexista com liberdade.
Parece complicado, e
é. Mas você tem a liberdade para escolher entre um governo protetor, que te
acoberte e acomode, torne a passividade uma constância e a permissividade uma
lei, ou então um governo que faça com que as pessoas tomem por conta própria o
risco e conviva com a inconstância que é a vida. São escolhas, não há verdade
absoluta, não há certo e errado. São diferentes visões, que são baseadas em uma
cultura que é historicamente passiva. Escolhemos um estado acolhedor e o
círculo vicioso nos faz com que queiramos este estado sempre. O Brasil decidiu
que não quer ser livre.
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